Economista da Unicamp alerta: “Tudo o que foi feito pelo governo é insuficiente para conter a crise”. E deve contribuir para piorar o cenário.

O Coletivo Luta Fenajufe realizou, na manhã desta sexta-feira, 3, a transmissão ao vivo “Pandemia e Crise Econômica: o governo Bolsonaro e os desafios para os trabalhadores”, com a participação de Saulo Arcangeli, do Sintrajufe Maranhão, Luciana Carneiro, do Sitrajud/SP, e do economista e professor da Unicamp, Plínio Arruda Sampaio Júnior.

Saulo iniciou a “live” do Luta Fenajufe chamando atenção para o processo de mobilização permanente a que os trabalhadores devem estar atentos, mesmo em meio ao isolamento social. “Sabemos das dificuldades do momento, sem podermos nos concentrar, mas temos que buscar os meios, como as redes sociais, para manter a luta”.

PEC 10 e o corte salarial

Saulo destacou também que, apesar de o relatório da chamada PEC da Guerra não ter acatado as Emendas 4 e 5 do Partido Novo, que preveem redução nos salários do funcionalismo, está claro o conjunto de ataques (inclusive porque as emendas podem ser reapresentadas), que não vão cessar. Para ele, se a intenção fosse realmente atacar o problema da pandemia, as alternativas sempre apresentadas para resolver problemas sociais continuam dadas, entre elas: parar de pagar a dívida pública, revogar a Lei de Responsabilidade Social, “na verdade uma lei de irresponsabilidade social, de ataque aos trabalhadores, que precariza cada vez mais os serviços públicos”.

Ele também lembrou que essas são apenas algumas medidas de um amplo conjunto de ataques, que já incluem o aumento da alíquota da contribuição previdenciária, risco de demissões em massa no serviço público entre outros.

Para ele, um governo que faz esse tipo de ataques num momento desse, tem que sair, e Mourão, que elogia a ditadura, não é opção, enfatizou, criticando setores da esquerda que defendem o vice de Bolsonaro como alternativa (veja AQUI) .

Luciana Carneiro reforçou que a crise está dada há muito tempo, e tal como Saulo, apontou que o governo brasileiro tem sim dinheiro para atacar essa crise, mas uma vez opta por proteger a grande elite, o grande empresariado e os bancos. “O Partido Novo, extremamente elitista, comandado principalmente por empresários que pregam a redução do Estado, que vem agora propondo a redução de salários em mais de 50%. É muito fácil defender políticas de austeridade apenas para os trabalhadores por parte dos empresários“, indignou-se ela, que lembrou:

“O Banco Central já liberou para o setor financeiro mais de um trilhão de reais durante esta crise, e para os trabalhadores propõem retirar do orçamento social, para continuar repassando dinheiro para a elite, que se apodera de todos os recursos do país”.

Plínio: a crise já estava latente bem antes do coronavírus.

“Sabíamos que a crise estava dada, mas não sabíamos quando ela ia arrebentar”, sentenciou o professor.

Para ele, o atual quadro de pandemia acabou acelerando uma crise de grande envergadura, que acabou provocando o colapso e jogando a economia num quadro recessivo muito profundo.

Além disso assistimos à desorganização do processo produtivo em escala mundial, como a falta de equipamentos necessários para conter o vírus, desde máscaras, respiradores, entre outros.

Não é uma crise pequena, que não vai passar rápido, assim como a pandemia não vai passar rápida. Temos que nos preparar. Os efeitos serão uma recessão profunda. Na China, já há uma queda vertiginosa na produção. Nos Estados Unidos, nas últimas duas semanas dez milhões de pessoas foram jogadas no desemprego, requerendo ajuda do Estado. A economia europeia está no chão. Crescimento mundial de 2020 deve ser zero. Crise capitalista geral, complexa, profunda e de longa duração“, caracterizou ele.

E na América Latina?

Por aqui os efeitos devem ser ainda mais devastadores segundo o cientista, já que a crise vai bate mais em quem é mais vulnerável.

A recessão, segundo expectativa da ONU, por aqui, deve ser de quase 4%. “Tudo indica que deve ser uma crise na proporção de 1929, uma crise imensa. A América Latina volta-se à produção de commodities, dependente da entrada de capital internacional, que foge nesse momento“.

Por uma série de fatores da economia brasileira, por aqui ela, a crise, tende a chegar de forma rápida, profunda e duradoura. Quando Bolsonaro diz que a economia não pode parar, isso é bobagem, porque já parou“, diz, analisando ainda que a produção vai se desorganizar de maneira fortíssima e a recuperação vai depender de mudanças também profundas, anotou.

Economia já está estagnada há seis anos.

Plínio destacou ainda que esta crise chega num momento em que a condição no país já está aguda, com um em cada quatro trabalhadores já tendo inclusive desistido de procurar emprego, no desalento.

Nesse cenário, temos uma política econômica conduzida de maneira fundamentalista.

“Inclusive negando-se a crise, tanto a econômica quanto a pandemia num primeiro momento. Não se fez nada para produzir um plano de contingência. Quando o quadro piorou, em vez de atacar o problema, Bolsonaro e Guedes chamam contrarreformas, aproveitando a pandemia e a crise econômica para arrancar direitos dos trabalhadores. Essa foi a reação. Essas reformas não são a solução da crise, na verdade a crise é mais profunda no Brasil por conta delas. Mais neoliberalismo não vai resolver a crise, o mercado não resolve os problemas da pandemia nem da crise. É uma crise do neoliberalismo, do mercado, que se aprofunda em países onde esse receituário foi aprofundado, como Brasil, Estados Unidos, Espanha, Itália”.

Nesse quadro, aponta, em vez de socorrer o trabalhador, foram dados centenas de bilhões de dólares para os bancos.

“Para os empresários, foi dada a possibilidade demissão dos trabalhadores, e sem ônus; suspensão de jornada; de salários; a empresa se livra desse custo e o governo agora vai inclusive subsidiar isso, uma parte dos trabalhadores vai ganhar um seguro-desemprego pago por nós mesmos e o empresário se livra do ônus”, aponta.

Tudo o que foi feito é insuficiente para conter a crise.

Em vez de arrocho, agora é o momento em que o Estado tem de entrar com muita força, orienta o professor.

“O problema é que o Guedes não acredita nisso, só acredita no mercado. Essa é a situação que nós estamos: uma crise de pandemia grande, e uma crise econômica que é uma depressão de grande envergadura, com um governo altamente impopular e inoperante. Para atenuar, precisa e outra política econômica: tempos extraordinários pedem medidas extraordinárias. Para isso, precisaria de outro governo, já que a política desse governo é de extermínio”.

A desculpa para não se tomar medidas que vão contra o neoliberalismo, de que geraria inflação, para ele é falsa, porque a economia está completamente deprimida.

“Essa é a situação que nós estamos, completamente gravíssima, e os trabalhadores tem que se organizar, cobrar do estado, defender a vida e lutar por uma mudança econômica profunda. Pelo governo Bolsonaro, o trabalhador está completamente largado, ele vai ter que contar, o trabalhador, só com ele, com sua classe”, conclamou.

Entre as alternativas que estão dadas aos trabalhadores nessa luta, ele ressaltou:

  1. Saúde em primeiro lugar
  2. Quarentena
  3. Manutenção dos direitos
  4. Isolamento dos contaminados em condições dignas
  5. Tratamento a todos

Na economia:

  1. Suspender a política de reformas, não pagamento da dívida pública. Até o FMI já falou que nas economias fragilizadas nesse momento a dívida não deve ser paga
  2. Centralização do câmbio
  3. Controle popular do Banco Central, para que não seja trilhões para banqueiros e migalhas para os trabalhadores
  4. Reforço do SUS
  5. Estatização do sistema financeiro
  6. Revogação do teto e congelamento de gastos públicos (Emenda 95)
  7. Congelamento da cesta básica, luz, água, internet, plano de saúde

“Tem sim, alternativa, mas para isso tem que ter outro governo, com outra política”, ratificou.

E as forças pra fazer isso, hoje?

“Temos que construir essa força, propondo intervenção popular, com radicalização da democracia, com reformas, essa sim, populares, com reforma agrária, por exemplo, solidariedade e cooperação entre todos. Precisamos transformar em alternativas concretas, construir essa força política”, apontou Plínio.

PEC 10

A Sessão marcada para a manhã desta sexta foi remarcada para as 16h do mesmo dia. Luciana Carneiro apontou: “Temos que nos organizar para repudiar essa proposta. Essa proposta não é para amparar os trabalhadores, mas repassar mais dinheiro para o mercado“, alertou.

Como forma de pressionar os deputados a votar contra qualquer retirada de recurso dos trabalhadores dos setores público e privado nesse momento, o Sintrajufe Maranhão elaborou uma carta-modelo a ser enviada pela base aos parlamentares. Para acessar o documento, clique AQUI.