Pauta Nacional

Economista aponta que menos de 10% do orçamento vai para gastos com pessoal: retirar esses recursos não vai resolver crise do coronavírus

O economista Washington Moura, em transmissão realizada nesta quinta-feira, 2 de abril, pelo Sintrajud/SP, demonstrou quem serão beneficiados com a crise sanitária provocada pela pandemia do novo coronavírus, às custas dos trabalhadores dos setores público e privado, a quem o governo anunciou mais corte de salários e direitos.

A transmissão contou também com a participação de Tarcísio Ferreira e Inês Leal, coordenadores do Sindicato, que falaram que nesse momento o que se precisa é de investimento maciço tanto para diminuir os efeitos da crise sanitária provocada pela pandemia quanto da crise econômica que ela deve aprofundar, em vez de mais cortes, como anunciam Bolsonaro e Paulo Guedes.

Washington Moura pontuou que o orçamento para este ano de 2020 é de três trilhões e 565 bilhões de reais, sendo que menos de 10% é para despesas de pessoal, incluindo servidores da ativa e aposentados (R$ 344 bilhões). Outros R$ 409 bilhões são para pagamento de juros da dívida.

Somados a esses 409 bilhões de reais, está reservado ainda um trilhão e cento e noventa e três bilhões para amortização e refinanciamento da mesma dívida – ou seja: ela vai consumir 45% do orçamento.

O economista também explicou que “o grosso dessa dívida vai para algo em torno de duas mil famílias que detêm os títulos dessa dívida”.

O corte de salários, retirado os que não poderão ser atingidos, como os servidores da área de saúde, representaria algo muito pequeno para enfrentar uma crise desse tamanho, em torno de 2bilhões e trezentos milhões de reais. Esse número chega a ser menor que o previsto pela Auditoria Cidadã da Dívida (que estimou, a partir de declarações do presidente da Câmara Rodrigo Maia, algo em torno de R$ 3 bilhões mensais, ressaltando que também é muito pouco se comparado ao gasto da dívida, ou com os recursos que poderiam ser gerados com um imposto para grandes fortunas).

Para o economista, os servidores devem resistir, porque isso também aponta o caminho da resistência para os trabalhadores do setor privado que serão atingidos com cortes via Medida Provisória.

Crise não vem de agora

Moura também confirma as informações dadas por Maria Lúcia Fattorelli, da Auditoria Cidadã da Dívida (veja no nosso site), de que a crise aprofundada pela Covid19 não teve início agora.

Ele explica que, de 2016 para cá, o PIB brasileiro vem apresentando resultado negativo de 0,1, “não há crescimento”. As informações também confirmam as que foram repassadas pelo movimento de Auditoria da Dívida. Além disso, o IPCA nesse período já  acumulou mais de 18%, enquanto a bolsas subiu 166%. “Uma bolha”, definiu.

Privatizações, reforma da previdência, reforma trabalhista e demais ataques, tudo foi feito com o discurso de que se precisava tomar essas medidas “para a economia andar, mas o resultado foi o oposto, de agravamento maior da crise. No mundo inteiro, foi aplicado de maneira direta ou indireta, parcial ou profunda, esse receituário”.

A crise de 2008 não salvou trabalhadores, mas o capital, gerando o endividamento do Estado (em nível global). Daí os grandes países fizeram reformas, com ataques diretos à classe trabalhadora, com reforma da previdência, precarização do trabalho, privatização e outras medidas. Tudo isso gerou a redução de renda dos trabalhadores, mas também uma redução do mercado, “porque o que faz a economia prosperar e avançar é a renda dos trabalhadores. Por outro lado, aumentou ainda mais a concentração da renda”, ressaltou ele.

A bolha explicada por Washington, “o boom das bolsas de valores sem lastro na realidade é a crise que se enfrenta nesse momento. E os capitalistas novamente empurram para que alguém pague essa conta. A produção industrial em queda acentua essa situação”.

Crises, financeira e sanitária

Moura cita o sucateamento feito nos últimos anos: “Somente na Saúde a EC 95 cortou R$ 30 bilhões (responsável pelo congelamento do setor público até 2036), fora cortes na pesquisa, no saneamento e outras áreas importantes”, destacou.

Ao mesmo tempo, a renda emergencial não gastará nem R$ 60 bilhões (recursos que serão repassados para as famílias desempregadas que vão de R$ 600,00 a R$ 1200,00).

“Precisa investir em saneamento, saúde, pesquisa. Garantir empregos, mínimo de infraestrutura de saúde e tudo o que precisa, isso custaria R$ 1 trilhão, mas as medidas até hoje anunciadas chegam a R$ 147 bilhões (a Alemanha, ele exemplificou, investirá quase R$ 2 trilhões de euros; a Grã-Bretanha, 17% do seu PIB; os EUA, 11% – e o Brasil, 4%). Isso dá para ter uma ideia de como essa situação repercutirá imediatamente na questão da sobrevivência, da saúde e da economia”.

Salvamento dos Bancos

O economista classificou a situação como extremamente grave e profunda: a Medida Provisória 930 diz que enquanto perdurar a crise da Covid19 os membros do Banco Central não poderão ser processados por nenhuma de suas ações. Ações que terão como consequência a transferência direta de recursos públicos para os bancos, por exemplo.

Em vez de abrir linha e crédito para empregos e salários, o governo destinou, através do Banco Central, dinheiro para os bancos, para que eles façam isso, emprestem e ganhem dinheiro em cima dessa situação. Assim, destinou-se aos bancos um valor dez vez maior que o destinado em 2008 para salvar as instituições financeiras da crise naquele momento, resultando, agora, em aumento das taxas de juros dos bancos.

Várias medidas poderiam, então, ser adotadas, ele propõe: como a destinação para combater a atual situação do dinheiro que hoje é destinado para a dívida, de mais de um trilhão; dos recursos que foram destinados aos bancos nesse momento; as reservas internacionais; o dinheiro da renúncia fiscal que beneficia grandes empresas e, além disso tudo, se fosse necessário fazer mais dívida, deveria ser feito, porque é uma questão de emergência que precisa ser tratada, ressalta.