Movimentos Sociais

“País mais feliz do mundo”, Noruega gera tristeza e miséria no norte do Brasil

Em março do ano passado, a Noruega ultrapassou a Dinamarca segundo avaliação da Organização das Nações Unidas, tornando-se o país mais feliz do mundo. Em que pese a qualidade de vida alcançada pelos seus habitantes, um fator chamado pelos ambientalistas de “externalidade de custos ambientais” contribui para que a felicidade que se vive lá resulte em boa parte da intranquilidade que se produz em outros lugares do mundo – aqui mesmo no Brasil, por exemplo.

É que, segundo o conceito de externalidades, os custos socioambientais de corporações que impactam o meio ambiente e pequenas comunidades e mesmo grandes cidades são geralmente transferidos dos países de primeiro mundo para os de terceiro, onde chegam com a promessa de redenção econômica e geração de empregos quando, na verdade, são empreendimentos dispensáveis em seus países de origem pelos perigos e ameaças que geram. Não à toa os países do topo da lista é composto de nações ricas, que externalizam seus custos sob o discurso de estarem levando o desenvolvimento para as áreas periféricas do planeta.

Felicidade na Noruega, Tristeza e ameaça no Brasil

Entre os itens que “medem” o grau de felicidade segundo a ONU está a “boa governança” – para os de casa, óbvio.

No Norte do Brasil, essa boa governança tornou-se crime ambiental – premeditado, diga-se de passagem.

Isso porque a Alunorte, fábrica de alumínio pertencente à Hydro, empresa norueguesa que tem o governo daquele país entre seus acionistas (o governo da Noruega detém um terço dos papeis da Hydro) uma das maiores produtoras de alumínio no mundo (que diz em seu verbete na Wikipedia ser atuante no campo da energia “renovável”), vazou seus rejeitos tóxicos na área de Barcarena, no Pará, afetando rios, igarapés e comprometendo gravemente a saúde da população local. Não é a primeira vez que a mineração produz tamanho estrago no Brasil. Basta lembrar de Mariana, em Minas Gerais, que registrou o maior desastre ambiental do país, cuja responsabilidade recai sobre o consórcio formado pela Vale S.A e a Alcoa, em mais um caso de externalização de custos, com a cumplicidade, nesse caso, dos governos mineiro e federal.

O “desenvolvimento” em Barcarena: paraíso para as mineradoras, inferno para seus habitantes

Barcarena, aliás, é uma cidade onde os efeitos nocivos gerados pelos altos e concentrados lucros da mineração são denunciados há muito tempo pela população resistente, como aconteceu durante a Etapa Marabá, do Seminário Internacional Carajás 30 Anos, realizado em 2014 no Maranhão e no Pará.

Moradores que se organizam em suas associações e movimentos sociais, denunciaram naquela ocasião não apenas o alto grau de degradação ambiental, mas também as ameaças que sofrem em razão das denúncias que fazem. Um típico exemplo de saque da riqueza ambiental local, levada para fora, deixando para trás um rastro de destruição e intimidação.

Assim como acontece também agora no caso da Hydro, em que três mulheres, lideranças locais, denunciaram estar sofrendo intimidações por parte da multinacional desde que colocaram as bocas no mundo, chamando atenção para o caso que se revelou um crime (inicialmente a mídia, o governo do Pará e a empresa atribuíam às chuvas o derramamento de rejeitos, que teriam sido um transbordamento acidental de seus lagos tóxicos: mais à frente foi descoberta sua atuação deliberada para poluir e contaminar a água na região).

No último dia 12 de março, Paulo Sérgio Almeida Nascimento, um dos diretores da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama), foi morto a tiros aos 47 anos. Este é o segundo assassinato envolvendo membros da Cainquiama. Em 22 dezembro de 2017, Fernando Pereira também foi executado. Agora uma das ameaçadas é Maria do Socorro Costa Silva, presidente da Associação.

De acordo com as lideranças, as ameaças atuais estão ligadas às denúncias que a Cainquiama tem feito contra a mineradora norueguesa Hydro Alunorte.

Além da governança, outros itens são atribuídos ao se medir a felicidade de um país, como cuidado, liberdade, generosidade, honestidade, saúde e renda. Não é dito que a infelicidade local, assim como os danos ambientais, também pode ser externalizada, como parece acontecer nos casos descritos acima.

Nos links a seguir, mais informações de como a promessa do desenvolvimento vinda dos países felizes vem se revelando numa grande e infeliz ocorrência em nosso país, especialmente no que tem acontecido em Barcarena (mas que pode ser visto aqui também no Maranhão, cortado pelos trilhos da Vale e com a promessa, por exemplo, de um grande porto privado na comunidade Cajueiro, em São Luís, que desde 2014 perturba pescadores, marisqueiros, artesãs e quebradeiras de coco):

 

 

 

 

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É do IBAMA a foto que ilustra esta matéria