Temer deve vir a São Luís nesta sexta-feira inaugurar obra de porto que pode exterminar comunidade tradicional

Políticos e empresários aguardam a vinda do presidente mais mal avaliado da História da República do Brasil nesta sexta-feira, 16, ao Maranhão.

Michel Temer deverá vir a São Luís lançar a pedra fundamental do porto que a corporação WTorre pretende construir onde hoje está assentada parte da comunidade Cajueiro, formada por pescadores, marisqueiros, quebradeiras de coco e pequenos agricultores, na Ilha do Maranhão.

 

Porto da WTorre/WPR: uma história de terror, um exemplo do estado de exceção que vigora nas comunidades carentes do Brasil, empreendimento deve reunir investigados de todas as matizes, saudados pelo governador Flávio Dino

Desde que se começou a falar em construção de porto no Cajueiro, em São Luís, a história é cheia de controvérsias. Mais que isso: é uma clara demonstração do terror que se impõe aos pobres, semelhante ao que hoje choca o Brasil, com o assassinato da vereadora psolista carioca Marielle Franco, cuja voz denunciava abusos policiais em comunidades carentes do Rio de Janeiro e que foi silenciada de forma brutal em pleno centro daquela capital.

No Cajueiro, desde o início a opressão aos que eram considerados “empecilhos ao desenvolvimento” se fez evidente: a WTorre (cujo nome de fantasia em São Luís atende por WPR) colocou jagunços para vigiar os moradores, cercou as áreas de pesca, colocou portões impedindo o ir e vir da comunidade centenária (a história dos cultos afro no Maranhão passa pelo Cajueiro, onde está assentado o famoso Terreiro do Egito). “Comprou” as terras dos moradores, através de contratos criminosos nos quais estava escrito que o morador se admitia “invasor” e que estaria recebendo uma “ajuda” da empresa para se retirar, se comprometendo a não voltar mais. Para garantir que essa volta não se concretizasse realmente, as casas eram derrubadas imediatamente. Além das casas “comparadas” através dessa coação, foram derrubadas casas ocupadas e de pessoas que não entraram em qualquer acordo com a empresa.

Essas moradias, contudo, não deviam e nem podiam ter sido comercializadas: a posse das terras no Cajueiro é reconhecida pelo Estado através de título de assentamento no Iterma (órgão estadual responsável pela reforma agrária no Maranhão), e são de propriedade coletiva da comunidade, o que hoje é ignorado pelo próprio estado, que empunhou a bandeira do verdadeiro invasor – a WTorre, que teve apoio dos governos ligados a Sarney e segue com o apoio de Flávio Dino.

Mas isso é só parte da história. Na tentativa de sufocar a comunidade, quem se “chega” ao Cajueiro também é atacado. Na própria Universidade Federal do Maranhão, o GEDMMA – grupo de pesquisas que assessora os moradores e que já contribuiu com vários estudos na região, fazendo o que se espera de uma universidade pública, já recebeu panfletos intimidatórios. Um dos professores que coordena o grupo, doutor com vários orientados e orientandos de mestrado, doutorado e graduação e com vários prêmios na área, foi intimidado, com correspondência enviada a Universidade como se o denunciasse por fazer aquilo que ele é pago para fazer – pesquisar!

E mais: o encontro dessa sexta-feira promete reunir uma turma que, caso ricos respondessem por seus crimes, muitas contas teriam que acertar com a justiça: o próprio dono da WTorre foi obrigado a “pagar” meio bilhão de reais em acordo com o Ministério Público Federal para não ir preso na Operação Greenfield. Sem falar no “presidente” Temer, que, apenas para ficar no caso mais recente, teve seu sigilo bancário quebrado por decisão de ministro do Supremo Tribunal Federal. É com essa turma que o governador do Maranhão decidiu posar para a foto nessa sexta-feira.

Vai ter luta

Os moradores mais antigos do Cajueiro, entretanto, não se intimidam. É por sua resistência que o tal porto ainda não foi construído, já que lutam pela vida de sua comunidade (e, de quebra, pela preservação ambiental em São Luís) desde 2014. Eles deverão “recepcionar” o “presidente” nesse dia, esfregando-lhe na cara o mote “Cajueiro resiste”.

Eles devem contar na ação com representantes de movimentos sociais e sindicais (haverá ônibus saindo da Praia Grande às 6h30 da manhã e haverá também carona solidária ao Cajueiro para quem quiser participar).

Na verdade, participar desse ato, por tudo o que representam aqueles que estarão sendo saudados pelo governo maranhense, deveria ser obrigação de todos, até porque, caso o inusitado porto vá para frente, todos serão afetados: os estudos de impacto ambiental demonstram o caos social que se se abaterá sobre a Ilha com esse novo empreendimento (leia aqui): sob a eterna promessa de redenção do Maranhão e de desenvolvimento, empreendimentos predadores têm se assenhoreado das terras e do meio ambiente, relegando ao povo mais pobreza e doença.

Foi o caso, por exemplo, da vinda da Alcoa, da Vale, da Termelétrica do Eike Batista, e agora, do porto da WTorre. A riqueza que geraram foi apenas para os acionistas. Para São Luís e para todo o Estado, o que ficou foi a piora da qualidade de vida, aumento da violência e poluição desenfreada, que faz com que o ar da capital maranhense, hoje, seja pior que o de Cubatão, em São Paulo, cidade que já foi ícone da violação dos direitos ambientais do povo. Segundo os estudos, o porto deve, além de “matar” o Cajueiro, piorar essa situação, comprometendo a vida marinha, manguezais, promover desmatamento – o que já foi iniciado – na região, alastrando suas consequências pela Ilha.

Vale lembrar que quem quiser pode participar do ato nesta sexta-feira e também dizer #CajueiroResiste.

 

CONFIRME PRESENÇA TAMBÉM VIA FACEBOOK CLICANDO AQUI